Tudo o que você precisa saber sobre Tintim

Tudo o que você precisa saber sobre Tintim

O filme As Aventuras de Tintim – o Segredo do Licorne foi muito bem recebido por crítica e público. Produzido e dirigido por Steven Spielberg, que teve ajuda de Peter Jackson, (de O Senhor dos Anéis) e Kathleen Kennedy na produção, transporta para a grande tela uma das aventuras mais empolgantes e perigosas do jovem repórter belga.

Mas, afinal, como surgiu esse personagem, tão querido pelos amantes dos quadrinhos, mas até pouco tempo desconhecido dos cinéfilos?

Quem é Tintim? Conheça melhor os álbuns e a trajetória do mais importante personagem de quadrinhos em língua francesa

Por Julia Vidile, convidada especial do Pinguim

Mestre em Poética e História da Literatura e das Artes pela Universidade de Pau, França. Especialista em Tintim, membro da Assemblée des Joyeux Turlurons (Paris) e madrinha da extinta TV Moulinsart

abertura tintim filme segredo licorne aventura Herge Moulinsart

Tintim, criação de 1929 do belga Hergé, é um repórter que nunca produziu uma lauda. Mas suas aventuras, iniciadas há quase 85 anos, continuam a apaixonar o leitor contemporâneo com sua narrativa inteligente, seus desenhos de altíssima qualidade e seus personagens que, embora caricaturais, representam avatares em que cada um de nós pode se reconhecer.

Um jornalista de mentirinha

Uma das grandes acusações feitas a Tintim pela maioria de seus críticos é que, embora o personagem se apresente como jornalista, ele jamais foi visto escrevendo um artigo.

O que poucos sabem é que, no início de sua história, Tintim trabalhava de fato como correspondente internacional para Le Petit Vingtième, suplemento infanto-juvenil do jornal belga Le Vingtième Siècle. Seus três primeiros álbuns (Tintin au pays des Soviets, não publicado no Brasil, Tintim na África e Tintim na América) começam na estação de trem de Bruxelas, com o repórter despedindo-se de seus jovens leitores.

tintim Pays Soviets Herge Moulinsart
Essa primeira fase é marcada por histórias eurocêntricas com forte viés colonialista, enredo ingênuo e desenho bastante simples. Mas a série e o personagem cresceram.

Depois de uma incursão de Tintim ao Oriente Médio em Os Charutos do Faraó, sua continuação O Lótus Azul (1936) já apresentava uma visível diferença na qualidade gráfica e narrativa em relação às primeiras histórias. Tintim amadureceu e os problemas que passou a enfrentar, bem como a forma de enfrentá-los, tornaram-se mais realistas.

tintim Charutos Faraó Herge Moulinsart

Um jornalista de verdade

O grande responsável por essa guinada foi o jovem artista chinês Tchang Tchong-Jen que, tendo ouvido dizer que a próxima viagem de Tintim seria à China, resolveu escrever a Hergé, criador do personagem, para evitar que seu país fosse retratado com os mesmos clichês retrógrados e colonialistas já vistos nas aventuras anteriores.

Tintim encontra Tchang em O Lotus Azul © Herge Moulinsart

Foi, portanto, ao conhecer Tchang (imortalizado com seu próprio nome nos livros O Lótus Azul e Tintim no Tibete) que Hergé começou a aprimorar seus desenhos e a estrutura narrativa de suas histórias, tendo inclusive redesenhado os primeiros álbuns.

Embora Tintim não fosse mais visto abraçando seus fãs mirins na estação de trem ao partir para suas novas aventuras, ele não deixou de ser, na prática, um jornalista na acepção mais clássica (e romântica) do termo: curioso, destemido, sempre em busca da verdade.

Mas acima de tudo, Tintim constrói, com sua trajetória ao longo de cada álbum, uma verdadeira reportagem que permite a seus leitores ter uma melhor compreensão da situação mundial naquele momento da História, ou ainda um conhecimento mais aprofundado de civilizações desconhecidas e longínquas. Suas histórias ostentam paisagens reais e situações políticas contemporâneas.

Uma atenção especial é dada à busca da cor local – o desenho, refinadíssimo, impressiona por sua representação milimétrica, quase fotográfica, de cada objeto, paisagem e vestimenta, completando o caráter quase documental dessas narrativas.

Além de países reais, como a China, o Japão (O Lótus azul) ou a Escócia (A Ilha Negra), Tintim também visita países inteiramente fictícios mas baseados em locais existentes, como a Sildávia e a Bordúria de O Cetro de Ottokar (na Europa Oriental), a República sul-americana de San Theodoros de O Ídolo Roubado ou o emirado árabe imaginário Khemed, de Perdidos no Mar.

Todos os elementos que constituem esses países, da paisagem aos trajes típicos, passando pela língua, o regime político e parte da história, estão representados nos álbuns, em uma realidade que espelha e se cruza com a nossa, ajudando a explicá-la.

Por onde começar?

Entretanto, mesmo com toda a sua complexidade, as aventuras de Tintim são para todos (ou, como dizia o slogan de sua editora belga Casterman, ‘para jovens dos 7 aos 77 anos’). Cada leitor terá, obviamente, seu nível particular de leitura e de interesse.

As histórias, por seu conteúdo humano e educacional e, ao mesmo tempo, serem aventuras empolgantes e divertidas (não tem nada de chato num álbum de Tintim!) estão entre os melhores presentes que você pode dar a uma criança ou jovem de qualquer idade.

Um bom álbum “de entrada” para quem nunca leu Tintim é A Estrela Misteriosa. Ali, há uma pitada bem-dosada de tudo o que constitui o universo de Tintim: aventura, ciência, humor, confronto político, personagens bem-desenhados e marcantes. A partir daí, a exploração é livre.

Cena de A Estrela Misteriosa © Herge Moulinsart
Em A Estrela Misteriosa, Tintim descobre um novo mineral com propriedades desconhecidas © Herge Moulinsart

Os álbuns de Tintim

Muito dificilmente um fã de Tintim poderia citar um álbum favorito – eles vão mudando de acordo com a idade e a fase da vida.

Assim, os leitores mais jovens certamente preferirão acompanhar Tintim em sua busca pelo tesouro perdido de um pirata do século XVII O Segredo do Licorne, O Tesouro de Rackham, O Terrível – os dois álbuns que inspiraram o filme de Spielberg e Jackson, aliás dois fãs de longa data de Tintim.

Quem possui um espírito mais científico, vai se interessar na corrida para conquistar a última fronteira da humanidade – ao menos naquela época – em Rumo à Lua e Explorando a Lua.

Cena da alunissagem em Rumo à Lua © Herge Moulinsart
Pela primeira vez na história da humanidade, ESTAMOS ANDANDO NA LUA” – isso, anos antes de Armstrong! © Herge Moulinsart

Esse mesmo gosto por aventuras cheias de ação, misturado a um interesse por História e por civilizações desconhecidas, forma a base de fãs de álbuns como o maravilhoso As Sete Bolas de Cristal e O Templo do Sol, ou mesmo Os Charutos do Faraó, que giram em torno de arqueólogos, egiptólogos, incas, maldições ancestrais, mumificações e sacrifícios humanos.

Mais tarde, passamos a nos interessar mais pelas questões políticas. Elas sempre estiveram entranhadas nas histórias de Tintim, mas em certos álbuns (No País do Ouro Negro, O Caso Girassol, Perdidos no Mar) elas formam o próprio cerne dos acontecimentos que empurram nossos personagens pelo mundo: o conflito israelo-palestino, a guerra fria, golpes de estado financiados por grandes corporações.

Certas histórias, como O Ídolo Roubado (1937) e Tintim e os Pícaros (1976), retratam com muito humor a situação política das “repúblicas bananeiras” da América do Sul – que parece não ter mudado muito nos quase quarenta anos que separam os dois álbuns.

Um álbum como Tintim no Tibete, embora possa ser lido e apreciado por qualquer pessoa, costuma ter a preferência dos leitores mais maduros; em meio a encontros criptozoológicos (o Abominável Homem das Neves!) e às vastas paisagens nevadas do Teto do Mundo, podemos finalmente ver além do rosto vago e liso de Tintim e entender o que é a amizade.
Tintim chama o nome de Tchang em Tintim no Tibete © Herge Moulinsart
Em sonho, Tintim chama o nome de Tchang, em Tintim no Tibete. Só o Professor Girassol não se abala! © Herge Moulinsart

Para quem já leu e releu a coleção e conhece os personagens como velhos amigos, As Jóias da Castafiore certamente merece um lugar de honra no pódio – nada de aventuras tortuosas em países distantes ou corridas contra o tempo para salvar a civilização ocidental. Aqui, o elenco inteiro se encontra no solar do Capitão Haddock e… esse é o resumo de todo o roteiro, e é por isso que ele é tão bom.

Conheça os personagens

Os personagens principais de Tintim © Herge Moulinsart
A “família” Tintim © Herge Moulinsart

As Jóias da Castafiore veio provar que os personagens das Aventuras de Tintim são muito maiores do que as histórias das quais são protagonistas. Tintim, o herói por excelência, é jovem, gentil, educado, inteligente e habilidoso em diversas áreas do conhecimento humano.

Seu cãozinho, Milu, é seu inseparável companheiro desde o primeiro álbum, mas seu papel de “co-piloto” foi rapidamente assumido, em O Caranguejo das Pinças de Ouro, pelo mais complexo Capitão Haddock, um marinheiro mal-humorado, fanfarrão e ligeiramente alcoólatra, mas com um coração de ouro.

Aliás, “coração de ouro” também é a maneira como ele se refere ao Professor Girassol, que poderia atender ao estereótipo do cientista louco se não fosse pelo fato de que ele é, na verdade, extremamente distraído e “um pouco duro de ouvido”.

Dupont e Dupond, que não são irmãos (afinal, não têm o mesmo sobrenome…), são policiais extremamente conscientes de seu dever, embora nem sempre tenham certeza de qual ele é. A diva Bianca Castafiore dá o toque feminino – embora um tanto misógino – à série.

Os vilões também são dignos de nota: Rastapopoulos, o inescrupuloso milionário grego egresso de Onassis; o Dr. Müller, falsificador e mercenário; o coronel Sponsz, um chefe militar fascista… e mesmo os personagens menores, como o mordomo Nestor, o comerciante português Oliveira da Figueira e o terrível Abdallah, filho do emir do Khemed Ben Kalish-Ezab, são profundos e possuem função definida na narrativa.

Um bom exemplo dessa complexidade é o milionário Laszlo Carreidas, que encontramos em Voo 714 para Sydney: embora não se trate propriamente de um vilão, a maldade de seu personagem chega a ser chocante.

As Aventuras de Tintim são narrativas intrincadas, bem-construídas e apresentadas ao leitor com a mesma clareza usada em seus desenhos. Os personagens são verdadeiros indivíduos, com personalidades ricas e definidas. Em tempos de simplificação excessiva no cinema, na tecnologia e na literatura, é um alívio poder ter contato com uma série que não subestima a inteligência do leitor.

O autor

Hergé, o “pai” de Tintim © 2006 Numa Sadoul

Nascido em 1907 na Bélgica, Georges Rémi, vulgo Hergé, é considerado o pai da história em quadrinhos europeia. De fato, devemos a Hergé e seu Tintim a criação de um estilo que marcou as gerações posteriores, estabelecendo uma clara diferenciação entre os quadrinhos europeus e os americanos.

Os álbuns de Tintim, em seu aspecto visual, se aproximam mais da tradição da pintura do que da influência cinematográfica característica dos quadrinhos nos Estados Unidos. A estruturação dos quadros e páginas, bem como as cores, fazem pensar na gravura japonesa ukyio-e ou na obra de artistas europeus influenciados por ela, como o suíço Félix Vallotton (1865-1925).

Não acredita? Compare então esta gravura feita provavelmente em 1745 por Okomura Masanobu, retratando uma cena urbana na cidade de Yoshiwara…


94.Masanobu-YoshiwaraOkumura Masanobu, Cena de Yoshiwara (c. 1745)

… com este desenho de 1898 por Felix Valloton, que tem como tema uma rua parisiense.

Félix Vallotton Janeiro 1898
Félix Vallotton, Janeiro 1898

Encontrou alguma semelhança? Então compare novamente as duas gravuras acima com a de um gravurista japonês mais moderno, o inigualável Hiroshigue…

Utagawa Hiroshige cena noturna de Saruwakacho 1856
Utagawa Hiroshige, cena noturna de Saruwakacho, 1856

…e essas três com o trabalho de Hergé. A limpidez do traço de Hergé, claramente influenciado pela mesma fonte em que Valloton bebeu – as gravuras japonesas – inaugurou uma nova escola ocidental de desenho chamada de Linha Clara.

Cena de “O Lótus Azul”, de Hergé. © Herge MoulinsartCena de “O Lótus Azul”, de Hergé. Note a semelhança entre os motivos japonistas de Valloton e os próprios desenhos japoneses originais. Note também a técnica leve da “linha clara” de Hergé. © Herge Moulinsart

Hergé morreu em março de 1983, tendo deixado um álbum inacabado (Tintim e a Alfa-Arte) e o desejo expresso de que nenhum outro artista desse continuação à sua obra e às aventuras do jovem repórter.

Tintim e a Alfa Arte © Herge Moulinsart
Tintim e a Alfa Arte, álbum inacabado de Hergé, que faleceu em 1983 © Herge Moulinsart

Tudo o que você precisa saber sobre Tintim

TODAS AS IMAGENS DE TINTIM NESTE ARTIGO SÃO PROPRIEDADE EXCLUSIVA DE MOULINSART S.A. E ESTÃO AQUI SOMENTE A TÍTULO DE REFERÊNCIA. É VEDADA A UTILIZAÇÃO DE QUALQUER DESSAS IMAGENS EM OUTRO VEÍCULO QUE NÃO ESTA PÁGINA DO PONTOFRIO.COM.

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